O instante captado pelo olhar humano, através das lentes de uma câmera – ou simplesmente fotografia. Essa é a grande paixão de Evandro Teixeira, fotojornalista brasileiro que desde os anos 60 se dedica a registrar os grandes momentos e personagens da nossa história. A trajetória de Evandro, cujo trabalho ultrapassou as fronteiros do fotojornalismo e ganhou status de arte, é o foco do documentário Evandro Teixeira: Instantâneos da realidade (Paulo Fontenelle, Brasil, 2004). 
O diretor opta por uma construção pautada apenas em bons depoimentos e belas imagens - a única exceção é o início do filme, que traz um texto do poeta Carlos Drummond de Andrade narrado em ‘off’. Diante das fotos de Evandro Teixeira, ele escreveu: “ [...] É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana / e do real de cada coisa um mais seco real extraia / para que penetremos fundo no puro enigma das figuras [...] ” A habilidade de Drummond com as palavras traduz a habilidade do fotógrafo em captar instantes da realidade. E Evandro vai além: mesmo no exercício do jornalismo diário, ele realiza um trabalho de grande qualidade estética, rico em plasticidade. As fotos de Evandro Teixeira são, ao mesmo tempo, fato e poesia.

O documentário de Paulo Fontenelle conta com depoimentos de jornalistas, fotógrafos, artistas e familiares e é permeado, claro, pelas belas imagens de Evandro – a maioria em preto-e-branco e com o elemento humano quase sempre presente (de esportistas a estudantes, de políticos a moradores de rua). Com a câmera em punho e o olhar sempre alerta, ele esteve presente nas lutas de rua de 68, na posse do presidente Lula em 2003, nas conquistas do esporte e nos grandes momentos da cultura. Não por acaso, o renomado fotógrafo Sebastião Salgado classifica a obra de Evandro Teixeira como “profundamente brasileira, um pedaço da nossa história”. Afinal de contas, com a obstinação que lhe é peculiar, ele fotografou moda, fez ensaios livres, cobriu esporte, carnaval e política. Em relação a esta última, cabe ressaltar que o trabalho realizado durante o período da ditadura é de grande destaque e importância. Naquela época, a imagem era capaz de mostrar o que a palavra não conseguia, já que os textos eram mutilados pela censura. Muitas imagens capturadas por ele nesse duro momento da história do Brasil se tornaram célebres, como a foto da Passeata dos Cem Mil.
O jornalista Marcos Sá Correa, por sua vez, destaca o lado “moleque” de Evandro, que no início da carreira já era a estrela da redação do Jornal do Brasil. Vinte anos depois, Marcos o reencontrou na mesma redação. Ele continuava “barulhento”, “piadista” e, o mais surpreendente, matinha o mesmo entusiasmo da juventude. Outros colegas também estão presentes no documentário, como Fritz Ultzer, Walter Lessa e Rogério Reis. Eles discorrem sobre o excelente olhar fotográfico de Evandro Teixeira, que é dono de uma agilidade e perspicácia fora de série. Comentando sobre algumas imagens e sobre as artimanhas de Evandro para conseguir o melhor ângulo, Fritz Ultzer diz que na obra de seu colega e amigo existe a história da notícia mostrada pela foto e, mais ainda, a história de como a foto foi tirada.
O diretor colheu também o depoimento de Dona Nazinha, mãe de Evandro, que conta anedotas da infância do filho e do seu despertar para a fotografia. Para isso, Paulo Fontenelle fez questão de deslocar sua equipe até Irajuba, interior da Bahia, onde o fotógrafo nasceu e se criou. O próprio Evandro relembra momentos da infância e juventude, até a decisão de ir morar no Rio de Janeiro. Suas filhas Carina Caldas (jornalista) e Adriana Almeida (fotógrafa) falam com orgulho da obra do pai, que elas têm como fonte de inspiração.
Para finalizar o filme, Fontenelle abre um grande parêntese e mergulha no trabalho intitulado “Canudos 100 anos”, realizado em 1997, no qual o fotógrafo garimpou os vestígios da Guerra de Canudos e seus sobreviventes e os eternizou em imagens em preto-e-branco. Antes dos créditos, porém, entram ainda depoimentos curtos de todos que participaram do documentário e fotografias em que Evandro Teixeira aparece do outro lado da lente, posando com importantes figuras brasileiras - mas sempre com sua câmera na mão.



