domingo, 26 de outubro de 2008

(dê-vê-dê) Evandro Teixeira: Instantâneos da Realidade

O instante captado pelo olhar humano, através das lentes de uma câmera – ou simplesmente fotografia. Essa é a grande paixão de Evandro Teixeira, fotojornalista brasileiro que desde os anos 60 se dedica a registrar os grandes momentos e personagens da nossa história. A trajetória de Evandro, cujo trabalho ultrapassou as fronteiros do fotojornalismo e ganhou status de arte, é o foco do documentário Evandro Teixeira: Instantâneos da realidade (Paulo Fontenelle, Brasil, 2004).
O diretor opta por uma construção pautada apenas em bons depoimentos e belas imagens - a única exceção é o início do filme, que traz um texto do poeta Carlos Drummond de Andrade narrado em ‘off’. Diante das fotos de Evandro Teixeira, ele escreveu: “ [...] É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana / e do real de cada coisa um mais seco real extraia / para que penetremos fundo no puro enigma das figuras [...] ” A habilidade de Drummond com as palavras traduz a habilidade do fotógrafo em captar instantes da realidade. E Evandro vai além: mesmo no exercício do jornalismo diário, ele realiza um trabalho de grande qualidade estética, rico em plasticidade. As fotos de Evandro Teixeira são, ao mesmo tempo, fato e poesia.
O documentário de Paulo Fontenelle conta com depoimentos de jornalistas, fotógrafos, artistas e familiares e é permeado, claro, pelas belas imagens de Evandro – a maioria em preto-e-branco e com o elemento humano quase sempre presente (de esportistas a estudantes, de políticos a moradores de rua). Com a câmera em punho e o olhar sempre alerta, ele esteve presente nas lutas de rua de 68, na posse do presidente Lula em 2003, nas conquistas do esporte e nos grandes momentos da cultura. Não por acaso, o renomado fotógrafo Sebastião Salgado classifica a obra de Evandro Teixeira como “profundamente brasileira, um pedaço da nossa história”. Afinal de contas, com a obstinação que lhe é peculiar, ele fotografou moda, fez ensaios livres, cobriu esporte, carnaval e política. Em relação a esta última, cabe ressaltar que o trabalho realizado durante o período da ditadura é de grande destaque e importância. Naquela época, a imagem era capaz de mostrar o que a palavra não conseguia, já que os textos eram mutilados pela censura. Muitas imagens capturadas por ele nesse duro momento da história do Brasil se tornaram célebres, como a foto da Passeata dos Cem Mil.

O jornalista Marcos Sá Correa, por sua vez, destaca o lado “moleque” de Evandro, que no início da carreira já era a estrela da redação do Jornal do Brasil. Vinte anos depois, Marcos o reencontrou na mesma redação. Ele continuava “barulhento”, “piadista” e, o mais surpreendente, matinha o mesmo entusiasmo da juventude. Outros colegas também estão presentes no documentário, como Fritz Ultzer, Walter Lessa e Rogério Reis. Eles discorrem sobre o excelente olhar fotográfico de Evandro Teixeira, que é dono de uma agilidade e perspicácia fora de série. Comentando sobre algumas imagens e sobre as artimanhas de Evandro para conseguir o melhor ângulo, Fritz Ultzer diz que na obra de seu colega e amigo existe a história da notícia mostrada pela foto e, mais ainda, a história de como a foto foi tirada.
O diretor colheu também o depoimento de Dona Nazinha, mãe de Evandro, que conta anedotas da infância do filho e do seu despertar para a fotografia. Para isso, Paulo Fontenelle fez questão de deslocar sua equipe até Irajuba, interior da Bahia, onde o fotógrafo nasceu e se criou. O próprio Evandro relembra momentos da infância e juventude, até a decisão de ir morar no Rio de Janeiro. Suas filhas Carina Caldas (jornalista) e Adriana Almeida (fotógrafa) falam com orgulho da obra do pai, que elas têm como fonte de inspiração.

Para finalizar o filme, Fontenelle abre um grande parêntese e mergulha no trabalho intitulado “Canudos 100 anos”, realizado em 1997, no qual o fotógrafo garimpou os vestígios da Guerra de Canudos e seus sobreviventes e os eternizou em imagens em preto-e-branco. Antes dos créditos, porém, entram ainda depoimentos curtos de todos que participaram do documentário e fotografias em que Evandro Teixeira aparece do outro lado da lente, posando com importantes figuras brasileiras - mas sempre com sua câmera na mão.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

6º Festival Internacional de Cinema Infantil chega a Salvador


De 24 de outubro a 2 de novembro, a capital baiana vai receber, pela primeira vez, o Festival Internacional de Cinema Infantil. Criado pela atriz e diretora Carla Camurati, em parceria com a produtora cultural Carla Esmeralda, o festival vai ser realizado no Cinemark do Salvador Shopping e conta com uma programação de mais de 20 filmes infantis. De sexta a domingo, pais e crianças podem adquirir ingressos por R$4,00 e assistir a produções como Dois Mosquitos Dançando no Formigueiro, African Bambi (sessão 'pré-estréias internacionais'), Roberto Carlos em Ritmo de Aventura e Pluft, O Fantasminha (sessão 'clássicos Brasil'). Durante a semana, alunos das redes pública e privada de ensino poderão assistir sessões especiais na programação 'A Tela na Sala de Aula', com filmes escolhidos pela possibilidade de adequação a conteúdos curriculares da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Outra atividade que propõe a participação das crianças é a Oficina de Cinema e Animação, que mostrará algumas técnicas utilizadas na criação de filmes de animação. A programação completa das exibições e atividades está no site http://www.festivaldecinemainfantil.com.br/

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

(dê-vê-dê) Os Pássaros


Após o grande êxito de Psicose (1960), o cineasta Alfred Hitchcock se viu diante da responsabilidade de realizar o próximo trabalho à altura do seu filme mais famoso. Sua particular habilidade e seu domínio sobre a linguagem cinematográfica ficaram mais uma vez evidentes em Os Pássaros (1963), 50º filme da carreira do diretor. Ele também tinha como característica um extremo cuidado e afinco no desenvolvimento do roteiro. Nessa película, Hitchcock optou por uma trama bastante original e inovadora, resultando numa obra absolutamente criativa.
A princípio, nada de especial. A bela Melanie Daniels (Tippi Hedren) vai até a pequena cidade de Bodega Bay atrás de Mitch (Rod Taylor), solteirão com pinta de galã que ela havia conhecido de maneira inusitada numa loja de pássaros. As primeiras seqüências apresentam um tom leve, quase de comédia romântica. Na estrutura narrativa, o suspense ganha espaço gradativamente, tendo como pontapé inicial a cena em que Melanie é subitamente golpeada na cabeça por uma gaivota. A partir daí, ocorre uma verdadeira invasão de pássaros à cidade, que dão início a uma série de terríveis ataques. O tom sobrenatural passa, então, a tomar conta do filme, já que a situação apresentada é completamente inverossímil. Ninguém é capaz de deter a fúria das aves e, ao mesmo tempo, não há nenhuma explicação lógica para esse repentino comportamento sádico de seres que normalmente não provocariam temor algum. Com esse mote, o cineasta consegue criar uma metáfora para os nossos medos inespecíficos, brincando com a imaginação do público. Não há um assassino, o “crime” é colocado apenas como pano de fundo para que o aspecto psicológico presente nas situações de mistério e pavor ganhe destaque.

A já citada habilidade de Hitchcock se manifesta na música de Os Pássaros. Ou melhor, na ausência de música. Durante todo o filme, há apenas efeitos sonoros, sempre remetendo aos ruídos produzidos pelas aves. Outro exemplo bastante ilustrativo do talento do cineasta é a cena em que Melanie realiza um percurso de barco até a casa de Mitch. A seqüência em questão apresenta pontos de vista alternados (Melanie e observador) e se desenvolve de maneira absolutamente silenciosa - o silêncio, aliás, é muito bem trabalhado na sua filmografia como um todo. Essa homenagem ao cinema mudo teve o intuito de valorizar a linguagem visual, mostrando a sua devida importância. Há também, é claro, o objetivo de se criar um clima de crescente tensão no espectador. E frustrando as expectativas de quem espera por uma resolução, Hitchcock constrói sua obra de maneira que o filme simplesmente acaba sem um final em si. Fica claro que os pássaros dominam por completo a cidade, mas o destino dos personagens permanece em aberto.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

(dê-vê-dê ) Hype! (1996)

Aproveitando a (já) histórica passagem do Mudhoney por Salvador (na próxima quarta-feira, às 18:00 horas, no pelourinho), a dica de dvd de hoje é o documentário Hype! ( de Doug Pray). Lançado em 1996, o dvd só chegou ao brasil em 2007, através da coleção lançada pela extinta revista Bizz!

O filme traça um histórico do movimento que ficou conhecido como Grunge, surgido em Seattle, EUA, no fim dos anos oitenta e que misturava Punk, metal e falta de perspectiva. Considerado por muitos até hoje como a última grande revolução no rock, o grunge foi uma onda que quebrou e varreu o mundo por alguns anos até fazer o seu caminho de volta, com a morte do seu ícone maior, kurt Cobain, deixando o estrago de um tsunami enfurecido na música pop desde então.

Em 1 hora e 23 minutos, os músicos da cidade contam histórias, anedotas e refletem sobre a dimensão que o movimento ganhou mundialmente, graças à explosão de bandas como Nirvana, Mudhoney, Alice in Chains e Pearl Jam. Também estão lá o Fotógrafo oficial do movimento, Charles Peterson, Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, os donos da Sub Pop, a gravadora que lançou (e continua lançando) boa parte das bandas da cidade.

No documentário também estão Eddie Vedder, líder do Pearl jam (que à época vivia um período de reclusão midiática voluntário, que durou muitos anos), propagandeando as virtudes das bandas locais, que não alcançaram o estrelato, além de bandas como TAD, The Posies, 7 year bitch, the melvins, supersuckers e os "pais do Grunge", o Mudhoney, cujo Vocalista, Mark Arm, cunhou o termo em um fanzine punk local e à época exercia uma influência decisiva sobre a cena local.

Hype! é um verdadeiro tratado sobre um movimento que deixou marcas profundas na indústria do disco, ditou moda à revelia dos envolvido e cujo pedaço importante da história passa por terras soteropolitanas nessa quarta-feira. Imperdíveis! (o show e o filme).

Assita abaixo a um excerto do filme:

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Salas do circuito alternativo abrem as portas para a 5ª edição do Festival Cinema de Arte





Entre os dias 10 e 23 deste mês as Salas de Arte terão uma programação especial, voltada para o 5º Festival Cinema de Arte de Salvador. Serão 70 longas e 10 curtas, entre filmes nacionais e estrangeiros, divididos em 10 mostras. Das produções brasileiras destacam-se o gaúcho Ainda Orangotangos, plano-sequência de 81 minutos, e Feliz Natal, que marca a estréia do ator Selton Mello na direção de um longa-metragem. O lançamento do Festival aconteceu no dia 30 de setembro, no Teatro Castro Alves, e contou com a presença da atriz Sônia Braga, que é a homenageada desta edição. Sônia ficou eternizada nas telas de cinema com três fortes personagens de Jorge Amado - Tieta, Dona Flor e Gabriela - e, devido a sua ligação com o universo amadiano e a Bahia, ela ganhou ainda o título de Cidadã Soteropolitana na Câmara dos Vereadores. "Todo mundo pensa que eu sou baiana", diverte-se a atriz, que na verdade é paranaense.

(na telona) O Mistério do Samba


Delicadeza, poesia e samba, muito samba. O documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda mergulha na história da Velha Guarda da Portela, com seus personagens, alegrias e tristezas, cuícas e pandeiros, versos e melodias. O Mistério do Samba (Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, Brasil, 2008) revela, através do olhar sensível dos diretores, a simplicidade de pessoas que transformam suas dores em música. Ao longo de 90 minutos, o filme apresenta um belo trabalho de imagens, ótimos depoimentos e um roteiro que passeia por temáticas bem definidas: o processo criativo, as fontes de inspiração, a malandragem, a cerveja, a presença feminina, o samba-no-pé e até as profissões que cada um exercia fora da Portela. O Mistério do Samba é delicioso de assistir e, sem perder a naturalidade, leva o espectador do riso às lágrimas. A trilha sonora, é claro, fica por conta dos sambas da Velha Guarda, que dão um toque especial ao filme e brindam nossos ouvidos. O documentário destaca o importante trabalho de pesquisa e resgate de sambas antigos feito pela cantora Marisa Monte e conta ainda com as participações especiais de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho. O Cine Menu recomenda.