O manifesto surrealista foi escrito em 1924 pelo poeta, escritor, crítico e psiquiatra francês André Breton e influenciou o maior nome do Surrealismo no cinema, o espanhol Luis Buñuel. Essa corrente propõe suplantar os limites físicos e materiais para apresentar a unificação entre a realidade exterior e a realidade interior (sonhos, alucinações, angústias), chegando a uma realidade total. A sétima arte se revelou, então, uma ferramenta eficiente para a proposta surrealista.Prova disso é a obra de Luis Buñuel, repleta de seqüências insólitas e memoráveis, que rompem com todos os padrões sociais. Em O Anjo Exterminador (Luis Buñuel, México, 1962), os personagens são colocados numa situação limite que possibilita ao diretor se deleitar diante da degradação humana, da hipocrisia que dá lugar aos instintos reprimidos. Para fazer cair a máscara da sociedade burguesa, Buñuel aplica um recurso surrealista: após o jantar, os convidados inexplicavelmente não conseguem sair da casa dos anfitriões, permanecendo ali por dias a fio.
Ainda com seus trajes de gala, os convidados dormem no chão, não têm mais alimentos nem água; e é a partir daí que os personagens começam a passar por situações inimagináveis para seu status sócio-econômico. A crítica à elite está sempre presente nos filmes de Buñuel e muitos consideram O Anjo Exterminador aquele que mais trabalha essa questão. O que vemos é uma crescente animosidade entre convidados que antes se cumprimentavam cordialmente, briga por água e comida, agressões físicas e verbais, adultério e desejos sexuais escancarados. Em suma, homens e mulheres aprisionados aos padrões sociais acabam se tornando cada vez mais irracionais e instintivos. A certa altura da trama, um dos personagens parece querer advertir o que já não tinha mais a menor importância: “Lembrem-se de quem são, de como foram educados!”
Em O Anjo Exterminador nada é tão óbvio, mas cada detalhe é preenchido de significado. O recurso da repetição de cenas e frases, por exemplo, parece casar perfeitamente com a vida daquelas pessoas. Uma vida tediosa, sem sentido, que se resume a uma constante repetição de formalidades e rituais fúteis. Nesta obra, Buñuel consegue, portanto, subverter os padrões do mundo objetivo: desde o urso (!) de estimação da anfitriã até a degeneração dos personagens diante das provações às quais são submetidos.
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